06
maio
09

Vida No Bairro

Por Taísa Ennes

Mal pisei em casa e os gritos começaram.

Dois homens, correndo, faziam grande barulho na frente do prédio. Um gritava por socorro, enquanto o outro o perseguia, incessantemente. Fui pra janela, tentar ver o que era, mas a visão foi parcial, graças ao parapeito que impedia que eu enxergasse a calçada.

De repente, os gritos se concentraram bem debaixo da minha janela, onde eu não podia ver. Os homens não estavam mais correndo, havia apenas o ruído de vidro quebrando, pancadas ocas e interjeições impressionadas por toda a rua. Uma senhora foi arremessada no asfalto, todo o comprimento estirado no chão. Seus óculos foram parar do outro lado da faixa. Ela também começou a gritar por socorro.

Minha mãe, barraqueira nata, desceu as escadas rapidamente e foi pra rua, na tentativa de ajudar a velhinha. Da janela eu pude ver Seu Coisa, o marido da senhorinha, levantando a esposa do chão. Olhei para o apartamento de cima, Babi, minha vizinha de 10 anos, disse: “É briga”. O interfone começou a tocar. Corri do quarto para a cozinha e o atendi. Era a minha mãe, pedindo que eu descesse e trouxesse o celular, pra acionarmos a polícia. Desci.

No chão, os rastros da briga, mas os homens não estavam mais lá. Havia, porém, mais de dez pessoas, na frente do armazém do Seu Coisa, prestando solidariedade à pobre velhinha, que tinha os pulsos e uma canela lanhados, pelo tombo.

– O de azul é um baita dum safado! Tinha mais é que apanhar mesmo!

O armazém estava completamente desorganizado, com latinhas de cerveja por todo o chão, e as prateleiras bagunçadas. Os homens haviam invadido o lugar, e brigado ali mesmo, entre os galões de água e as prateleiras de madeira crua. O pobre Seu Coisa organizava tudo bem quieto, nervoso, enquanto a velhinha mostrava, com certo orgulho, as marcas da sua pele ralada pros transeuntes. Os moradores do prédio estavam revoltados, e conversando entre si, ali, na rua mesmo, descobriram que o cara que estava fugindo é um tarado que já havia engravidado mais de três garotas da redondeza, assaltado todos os pequenos comércios da Rua Júlio de Castilhos e era procurado pela polícia. Atendia por “Dentinho”. O homem que bateu, Edgar, era um dos comerciantes dessa rua. Edgar se tornara nosso herói, em menos de dez minutos de conversa. Passados alguns instantes eis que surge no final da rua, Edgar, o próprio, andando rápido em direção ao armazém.

A Senhora me desculpe por essa confusão, eu não pretendia envolver outras pessoas nisso, mas a Senhora viu que foi ele quem lhe empurrou, não viu? – o homem, que me lembrou muito o Wolverine, tremia. – Eu vim aqui me desculpar e saber se houve algum dano no armazém, eu reponho qualquer coisa quebrada. Esse cara é um safado, um vagabundo, estava passando a mão na minha filha de nove anos.

Todos os moradores que assistiam tiveram náuseas. Após algum tempo ouvindo o homem e assistindo a velhinha passar álcool nos ferimentos como se fosse água, o aglomerado de curiosos começou a dissipar e Edgar também foi embora. Ficaram ali embaixo apenas eu, minha mãe e mais duas moradoras. Quando estávamos nos preparando pra subir outra vez, nos surpreendemos com Dentinho, o safado, andando displicentemente na rua, acompanhado por um sujeito de bicicleta. Ele vinha na direção do armazém. As outras moradoras entraram no prédio, minha mãe e eu ficamos ali. Dentinho passou devagar pela frente do armazém, como se nada tivesse acontecido. A velhinha estreitou os olhos ao ver ele passar. Mas minha mãe… Ah, minha mãe!

– Escuta aqui seu vagabundo! Tu faz os teus angus e depois vem quebrar pau aqui na frente da nossa casa?! Pois da próxima vez que tu por teus pés aqui a gente vai tirar o teu coro seu safado, ordinário!!

Não te preocupa. – ele disse, exibindo seu apelido na boca – Eu já dei parte daquele homem na polícia e…

E quem é tu pra dar parte de alguém!? – a velhinha se pronunciou. Seu Coisa se encolheu mais um pouco dentro do armazém.

Fora daqui seu imundo! – minha mãe falou com os punhos fechados. Eu mantive meus olhos no cara da bicicleta, que olhava minha mãe como se estivesse prestes a ataca-la. Se ele fizesse isso, eu o derrubaria. Não sei exatamente como, mas meu instinto heróico sempre aflora nessas horas.

Dentinho, muito nervoso começou a sair, chamando o cara da bicicleta para que o acompanhasse. Antes que ele sumisse de vez, no final da rua, minha mãe gritou: – Mais uma que tu aprontar eu te capo, vagabundo!

E assim, mais um dia chegou ao fim em Niterói, lugar de grávidas, loucos bêbados, cachorros sem dono e maníacos pedófilos com deficiência dentária. Ah! Lar, doce lar!

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2 Responses to “Vida No Bairro”


  1. 1 Davi
    6 maio, 2009 às 2:54 pm

    Não muito diferente do centro. Microcosmos suburbanos.

  2. 2 Berni
    7 maio, 2009 às 12:15 pm

    To com medo de te visitar Taísa, vai que um estuprador me acha no caminho :x


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